sábado, 18 de setembro de 2010

Texto Bobo


Preciso escrever. A cabeça gira, gira. Ideias querendo, pela primeira vez desde que me lembro que é primeira, no instante de agora, sair e germinar, que nem plantinha nascida recém. Escrever e não olhar para trás, para revisar a concordância e ortografia. É como se tivesse algo relevante a ser dito. O que flutuava e boiava no mar do juízo, quer tomar forma de letra de máquina.

Deixando Descartes positivista para outras gerações, não dividindo o corpo da mente, parte de mim quer dormir porque sabe que o organismo - momento em que todas as áreas que mantem o consenso dentro de você - pensa que está cansado. As pernas doem, a barriga padece com cólicas. Mas isto quer ser visto, quer se sentir vaidoso. Vaidade advinda das leituras alheias do texto que é seu. Seu até agora, porque outras pessoas são proprietárias dele. Por isso mesmo que não há propriedade no assunto.

Tive hoje a oportunidade de assistir a um filme antes de desabar por dentro ou acordar para dentro. Tive antes, num passado bem ou mal passado, a oportunidade de assistir a outro filme. O primeiro é francês e o segundo, norte-americano. Da nossa visão estereotipada, pode-se concluir, ou achar simplesmente, sem me conhecer, o qual mais apreciei.

Tive a oportunidade, hoje, de me conhecer. Conhecemo-nos os dias todos em que acordamos para fora. Não tenho, no entanto, consciência que isso acontece. Isso acontece e acontece, pronto. Percebi que gosto do filme com mais características humanas; gosto de perceber e sentir, dentro de filme, que há uma máquina operada por homem com mãos e olhos. Vi, isso no francês. Ele me desperta vontade de falar dele – do filme. Câmera na mão. Vi muito e achei lindo. Treme, respira, sem linhas e momentos fixos. Dinâmica do humano ser. Cinema.

Vi uma escola. Não era uma escola comum. Mas não existem escolas comuns - roubei um pouco do que diz Jorge Furtado e bebi na escrita de Paulo Freire. Estruturas as mesmas e não mesmas. Início de uma mudança no ensinar. Percebi um professor que, quando do final do filme, não foi reconhecido. Nenhum de seus alunos disse que aprendeu algo com ele, na disciplina. Citaram professores outros, conhecimentos que não os de sua área. Este era o protagonista. Humano. Contraditório, não-equilibrado. “Chamou duas alunas de vagabundas?”, perguntam à ele. “Pode-se dizer que sim”, diz ele, através de uma legenda que não sei se posso confiar. O fim do filme norte-americano deu-se numa festa, se não me engano, com professores e alunos às lágrimas e às gratidões para com a professora.

Necessidade de fazer-se comunicar e de ser comunicado. Digo, de fazer-se entender. Explica melhor e não me acha mais burro se não compreendo o que é dito. Paciência. Há inovações do ponto de vista da educação. Alunos são ouvidos, ou seja, alguém lhes ouve e responde aos seus questionamentos, comprometendo o tempo da aula. E que tempo é esse, se não para ouvir?Barulho, agonia, irritação, vontade de sair do recinto e de gritar e desistir. Passou para mim, a sensação de inquietação. No seriado Malhação vejo a aula como coadjuvante, como cenário. Ali, na película, assisti à aula, vi o que era discutido. Por que a aula não pode ser interessante e tem de ser apenas o lugar no qual as pessoas se encontram? E por que a televisão não pode veicular uma aula que é aula?

Vi também um professor que se recusa a se equiparar aos alunos. Ele pode, mas os alunos não podem. A diferença da realidade real é que os alunos reivindicam esse poder e estimulam essa defesa. Bases antigas. Expulsão do aluno. Passar o problema para outra instituição. Quem terá a coragem de lidar com o problema? Livra-se.


Sinto, no entanto, que o texto é bobo. Teóricos devem já ter pensado nisso e consequentemente publicado. Mas por que eu não posso adaptar o que sou com o que ouço, já que sou um conjunto de vozes? Reproduzo apenas? Não sei.

A escola dava alguma voz aos alunos. Duas delegadas numa avaliação que culminará na média final de cada aluno. Mesas quase circulares, eram as dos locais das reuniões. Várias mesas retangulares dispostas em um círculo que era quadrado. Era o início da transição do retangular para o círculo perfeito.

Silêncio é sinal de disciplina. A calar, aprendemos desde pequenos. A crer como verdade. Mas perceptivelmente, o barulho diminuiu do começo para o fim do filme. Não houve silêncio total, no entanto. Viu-se que as duas partes tinham algo a dizer e a ouvir.

Precisei parar para pensar e não, pensar para parar. Quando via afirmações deste jeito, não gostava, porque tinha de seguir com o pensamento e desfazê-lo, em seguida. “Primeiro compreenda o processo e depois questione”. Não! Não creio. Compreender e no, processo de compreensão, questionar.

Outra aluna filmática (neologismos mil), perguntava ao professor o por quê de ela estar na escola. Está-se dentro do processo, mas não há a possibilidade de compreendê-lo e saber para que serve. Aprendo, mas não sei para onde vou com essa bagagem. Roupas que não se adequam à ocasião quotidiana. Fala-se de outro jeito e não como quando se conjuga um verbo no pretérito-MAIS-que-perfeito. Perfeito.

O filme não se esgota, desgosta. Gosta da gota do toque. Ou toca, ou não toca, já dizia Clarice. Registro. Percebi que assisto à filme lindos, que tocam e que me abraçam. Mas, pouco tempo depois do abraço, vou atrás de abraços outros, por não lembrar-me da cor e do cheiro desse filmes firmes. Quanto a se dizer! São já muitas horas da manhã escura da noite, mas a cabeça de tonta que é, continua a girar quando da real vida.

Queta

SERVIÇO
Filmes: Entre les Murs, de Laurent Cantet
Escritores da Liberdade, Richard LaGravenese

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sem foguete

sem retrato e sem bilhete,
sem luar e sem violão



e agora também sem celular

tem dias em que voce sai de casa sem querer, só por ter que sair. mesmo sem foguete, mesmo que
fábio viana
tenha ficado de comprar e tenha esquecido. você sai sem prevê no que o tal mal pressentimento pode dar. no meu caso, antes, o máximo que podia acontecer era perder o humor, mas não a poesia e muito menos os celulares - no último mês já foram três.
ontem foi a segunda vez.

estava indo pro estágio desse jeito meio sem querer e de cara, pego um onibus cheião - pra 'melhorar' as energias. antes de reclamar no pensamento vejo uma cadeirina na parte de trás, ao lado da cobradora - entre ela e a porta, na verdade - sabe como é? vazia. e depois de um tempo vi que ali era um lugar bom de se ir ver. eu me via no vidro, eu via ainda mais a cidade (por uma janelona) e via quem subia e via a cobradora e via até o que não via toda vez que o motorista abria a porta pra alguem novo subir - naquele lugar ja tao cheio, e com isso trazia um vento pelas bandas dos pés. era um vento tao gostoso que batia nos pézotes que eu fui mandar uma sms para minha amiga queta. pra dizer por onde andava...

(com brisa fresca nos pés)

descrevendo essas coisas tin tin por tintin, nao deu tempo de terminar dentro do onibus. entao eu desci "escrevendo" e aí começou a chover e me molhar e molhar o celular, mas eu nao desisti... até que vi dois "maus" elementos do outro lado da rua e resolvi guarda-lo no bolso mesmo sem ter enviado a mensagem e fingi enxugar o óculos na blusa. até que eles vieram ate mim, rindo, com o riso de quem vai fazer uma brincadeira de mau gosto e um deles diz: passa o celular, gatinha. o outro, que ficou do meu lado, vendo que eu pensava um pouco (na verdade ficava num estado de nao acreditar que aquilo tava acontecendo de novo) disse "se nao leva umas facadinhas". pensei entao que não havia nada melhor pra fazer e entreguei (até feliz, por dessa vez ser so isso, o celular que eles queriam). mas nao deu tres segundos pro desengano, de lembrar que o celular era de um malono e que no aparelho estavam as fotos do sun rock, minhas, que so eu tinha e que agora nao tenho mais. nem o vento, nem uma brisa. só a lembrança.

a mensagem que ficara pela metade eu vim aqui entregá-la ao menos!
um cheiro.

Falda

p.s. daqui a pouco é bem capaz d'eu me acostumar a ficar incomunicável mesmo e talvez compre de vez esse foguete!