quarta-feira, 14 de julho de 2010

um conto cantado

Entre um ano e outro, 365 dias. Neste intervalo, ensaios para o festival que acontece sempre no mês de julho. Ocasião onde se reúnem aprendizes e professores da música e da dança em um só espaço, o cultural. É o grande dia.

Ele, violoncelista e filho de uma grande musicista, apesar de muito novo (19) já estava habituado a rotina orquestra-ensaio-casamentos-apresentações e afins. Ela, com seus vinte anos cravados e apenas alguns meses de aulas de violão, não. Mas gostava dos bastidores, de ver a evolução dos seus amigos e colegas. Fosse para ficar mais perto dele, fosse para tranquilizar uma iniciante um pouco mais corajosa: sua amiga bailarina.

Para legitimar a presença da primeira nas coxias, uma máquina. Sempre que necessário optava por fotografar as apresentações. Dele, principalmente. O músico e seu namorado há mais de dois festivais. Da amiga que baila, seria a primeira vez. Pelo menos em um palco grande como aquele. Por isso, a pequena estava feliz em poder fotografar a apresentação daquela noite. Feliz, mas distante.

As coisas haviam mudado desde o último festival. Ela havia aprendido a fotografar, ganhou uma máquina nova e entrou nas aulas de violão - por incentivo dele. Ele, por sua vez, foi ficando cada vez mais distante. A amiga bailarina havia percebido isso. No grande dia, na última prova de roupas, onde a menina e sua máquina - de tão pequenas, conseguiram passar despercebidas elas conversaram sobre isso. Havia uma violinista de bonitas tranças querendo entrar na história, ela dizia.

No bastidor do primeiro grande momento, se via: a menina estava lá, com câmera e coração nas mãos, ao chorar ao som de * alguma "música de orquestra", observando não a orquestra jovem se apresentar, mas o violoncelista a tocar em total silêncio – para ela. A bailarina, ao se apresentar pouco depois da orquestra sai do palco procurando a amiga. Não a encontra.

Nasce outro dia. O 365º depois desse. Dia de sol. Vê-se um apartamento cheio de fotografias espalhadas pelas paredes, mesas e outros móveis. Lugares bonitos, pessoas de cores, tamanhos e sorrisos bem diferentes uns dos outros. A menina, ainda pequena, mas um tanto mais madura, circula pelo corredor. Pega a chave do carro e sai. O violão fica na sala. Já é noite.

Estão eles, quase todos, mais uma vez na coxia do teatro do espaço (cultural). A bailarina, o violoncelista e os outros já nem tão iniciantes. Entre eles, a violinista. A primeira dá uma espiadinha e vê a plateia, que permanece com uma cadeira vaga logo na primeira fila, a da amiga. Esta atende seu telefone enquanto dirige e diz “estou chegando” com sorriso no rosto. O festival acaba e vemos a bailarina se despedindo do violoncelista e da violinista, que andam de mãos dadas, enquanto liga para alguém.

Vê-se a amiga de costas em uma varanda escura, com o celular na mão, falando: “Não pude, tentei te avisar. Este de agora me beija bem no meio das costas e cozinha só para mim. Nunca tive isso e não pude evitar”. Silêncio. “Entenda, com este eu fico alegre e com vontade de dançar. De uma maneira que violoncelo nenhum conseguiu deixar”. Minutos depois, no escuro da varanda, o celular da “fotógrafa” se acende com uma mensagem de texto que diz: então aproveite, que este é o teu melhor espetáculo.


Falda

2 comentários:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=2tF5Bu-zP70&feature=related

    * montage for Anne Frank de pavane for a dead princess foi a "música de orquestra" escolhida pela personagem real ;)

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