quarta-feira, 4 de agosto de 2010

bolero lero

O frio era muito. Muito. Ele não aguentou, casaco. Sofá. Era já quase manhã, ele a deixou na porta da casa, nos vemos amanhã. Amanhã. Ela com seu riso de canto, sim, sim, sim. Amanhã.

No claro do dia não se viram. Ela tentava, agoniada, resolver o impasse dorífero de cabeça que o Coréia havia lhe arranjado. Lá aparece ele, com uma camiseta de mangas vermelhas, abraçam-se de braço, ele pergunta se ela jantará. Ela, com vontade de ir, diz que não. O Coréia a fuzilaria com seus olhos metódicos. Mas o motivo ainda não era esse. Ela queria estar tranquila, para conversar tranquilidades e ter tempo para sorrisos e olhos curiosos.

Quis ver a mostra de cinema paraibano. Antes disso, ela cuida do pé, gelo. Abre a porta puxante. Ele está já sentado, com uma cadeira vazia ao lado. Ela rapidamente se senta por ali, ele pergunta se ela sabia que ele estaria ali. Ele estaria no petróleo, ela não sabia, então. Que bom que era ali, o lugar dela. Abraçam-se, assistem ao filme maxabombante. Paraíba e Rio de Janeiro. Engraçado. Retratava a Paraíba de jeito. Paraíba, paraibanos longe da terrinha.

O celular dela toca. Novo, de novo, meninas. O dele toca, pais. Ela toma banho, encontra-o dormindo pronto na casa. Acorda-o, ele tenta escovar os dentes, sem pasta de dentes. Cadê? Ele acha. Escova. Vão culturalizar. Encontra amigos dela, conversa com amigos dele. Assiste a Raul. Show gostoso, músicas conhecidas. Sentam-se num lugar que não sabiam que era proibido, a fita de sinalização estava rompida. Conversam, versam. Candidatos, música, filmes. Seguem para conversar perto da barraca. Ele diz que tem sono muito, preguiça, sentam-se. Cobertor. A outra menina passa e diz que vê sorrisos estampados, destampados.

Painel. Ele vai pontualmente, ela achava pendências no caminho. Bolsas, águas e carimbos que precisam ser entregues. Ele está lá, perto de uma coluna de concreto disfarçado, zinho só. Ela se senta, levanta, senta. Separam-se, ele vai para um círculo, lerear. Era o intensivo dos carimbos.

Almoçam. Entre olham entre eles. Entreolham-se. Ele a vê de cheia boca, ela o vê de boca cheia. Ele se esquece de entregar a bandeja, ela junta a dele à dela. Ele se foi para escovar dentes. Turno, tarde. Hora já tarde. Salas fechadas. Cinema. Consegue-se salas. Estrutura, atraso. Arrombamento. Filmes! Ele senta próximo à escada, depois acham lugar melhor. Ele tira um óculos do bolso. Dum bolso? Dum bolso. Ela sai, volta, sai, volta. Ele cochila, ela cochicha. É a tal da organização. Ele sai para atender o celular. Ele o vê, saindo pela escada da direita, carregando sua bolsa. Não quis deixá-la lá. Ela riu, vendo essa cena. Era um riso carinhoso, cheio de observação. Encontrou-a. Beatles. Beatles. Vamos? Vamos.

Ele chega já pronto às seis e meia em ponto. Ela nem banho conseguiu tomar. Mas ela vê de longe uma blusa preta, um jeito de andar familiar. Corre. Ele anda rápido muito. Ufa! Era ele mesmo. Ele pára para falar com o Coréia. Pede o email. Ela consegue decifrar algum .org. Ele pede para carregar o celular. Ela banho toma, vai para lá. Ele conversa com amigos que viraram vizinhos. O amigo tinha sido expulso no segundo dia deles, de sua casa, dormiu na casa do menino. Beatles. Reunião fica para depois, pelegos. Beatles. Côco, ciranda, cadê os Beatles? E o horário britânico? Mais de meia-noite, os Beatles resolvem dar as caras, ou melhor, as vozes. Inglês. Cansa o show, mas ele não a cansa. Ela canta abraçada à ele, que de vez em quando abre o guarda-chuva pesado. Voltam, carona. Passo apressado, era o banheiro. Dormem.

Ela lembra agora que esqueceu um dia. O dia de antes desse.

Um comentário:

  1. sorrisos tampados destampados, dentro de uma casa barraca. coração de bairro, não mais (temporariamente). coração de encontro, de barraca, de dia a dia. até do dia esquecido!

    gostei (:

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