As meninas passaram uma semana fora das órbitas. Os olhos saltaram, com vida, na ida. A volta estava fora das mentes ocupadas em ser. Dormir fora de casa, comer verduras, dois copos de suco. Acordar com rostos inicialmente não familiares, num colchão cheio de um ar entusiasmado.
Gostavam daquele vento frio, daquele tempo instável, das chuvas que passavam em poucos muitos segundos, do lero bolero. Davam nomes às pessoas e estas penduravam no pescoço algo que as caracterizasse. Eram cores, tamanhos, cheiros, vozes e perguntas vindas dum pais conhecido desconhecido. Varriam as salas com um gosto de começo, com o gosto da utilidade.
Ouviam pensamentos, pensa-mentes. Ouviram rap no dia primeiro. Dia primeiro, dia do vestido mais bonito da mala. Amigos, aperreio de um bar sem fichas para tanta demanda. Uma hora não aguentou, dançou. Sentiu o tom ébrio da música. No outro dia acorda cedo, assiste à rostos desconhecidos. Perde o manual de sobrevivência três vezes. Ela o quer neste momento para lembrar-se dos momentos passados.
Tenta lembrar-se.
Ela adianta o tempo e chega na terça à noite. Noite tranquila, dia de bares e trocos não trocados. Pegou o jeito da matemática, lembrou-se da quarta série. No final, dirigiram-se à casa própria de uma das meninas cacheadas. Conversam num sofá improvisado, saem as meninas, somem. Ela inicia uma conversa com um menino. Menino visto na penumbra, menino silhueta. A conversa estava boa, jornalismo, realidades citadinas. Chega outra menina cacheada, mais conversas, noite fresca, vento no rosto. Pé doído. Doído do para lá, do para cá.
No outro dia, ela acorda com o pé ruim. Estava próxima a um orelhão e o menino do dia anterior lembra-se dela, fala com ela. "Mas era ontem eu, uma silhueta. Hoje sou reconhecida". Sorri no canto da boca. Um "oi" sem intimidade, sem.
Núcleo de experiência improvisado. Vai num ônibus pago, vai num coletivo. Ela vota pelo coletivo, ele pelo pago. Maioria vota no pago. Vamos lá. Ela sobe mancando, senta-se ao lado da outra menina com o nome igual ao seu. Ele senta à esquerda, perto. Ouve as conversas, vira-se. Ela fica com vergonha de responder algo desinteressante, errado, àqueles que buscavam informações acerca da cidade. Permaneceu muda em alguns momentos.
Ela não tinha o costume de olhar nos olhos de desconhecidos. Mas olhou nos dele. Observava-o de longe, procurando sua presença quando ele se fazia distante. Sentava, levantava. Ela assustara a si, olhando muito para os olhos daquele. Era um tanto desajeitada para isso de ver e significar algo.
Voltam do passeio, ele senta nas primeiras cadeiras do ônibus. Ela passa, fica de pé. E o pé? Ai.
Jantam. É noite de ir à festa fora do estilo comum. Ficar feia é fácil. Feia para quem? Combina as roupas com as meninas, pega um colar emprestado. Listras, quadrados e colorido numa pessoa só, que não está sozinha. É carregada inicialmente pela menina, dentro de um carrinho de compras. Depois pelo menino. Ele a carrega com cuidado naqueles paralelepípedos violentos e barulhentos, diferentemente da outra menina, um tanto rápida, querendo o atrito e tremedeira alheia. Começa a chuva. Fria, molhada, silenciosa. Ele a carrega mesmo assim, estaciona, ajuda-a a descer. Sorrisos. Só risos.
A outra menina quer ser carregada pelo asfalto. Ele a carrega, chegam na noite escura clara. A música é prometida apenas para a meia-noite, por gente que chega num carro chamado Opala. Ela come, bebe refrigerante. Ele sai às vezes, e ela o acha sentado, de cigarro na mão. Fica perto.
Sai, passeia, conversa, ri. Aquela noite parece contente naturalmente. Ares tranquilos. Ela dança, diz que não dança, ele diz que não remexe também. Diz que não se vestiria de cafuçu. Ficam perto, tentam uma conversa, puxam assuntos sem importância, para ouvir suas vozes.
Ele diz que ela é tímida, que ele é tímido. Chama-a para uma conversa. Pergunta do seu estado civil de um modo bem afirmativo. Cereja. Agarra-a, ela estremece. Muito tempo olhando, sorrindo em direção ao outro. Olhando os olhos, sem precisar de desculpas.
Sentam. Conversam. Conversam. Em pauta, jornalismo. Grande veículo de comunicação, jornalismo impresso, Chico, Vinicius, Tom, trindade. Barulho, fim de festa. Músicas engraçadas, de um tempo outro.
Vão para perto de dormir. Sentam-se no banco próximo a uma janela de rostos que dormem. Eles fariam barulho e acordariam aqueles que estavam de olhos fechados. Sentam-se noutro lugar. Vento frio. Abraço, beijo. Aquilo fazia a cabeça rodopiar e repetir para si quão gostosas eram aquelas sensações. Foi dali que ela tirou a frase: a gente passa até frio quando a alma está aquecida. Ventinho gelado, mas não queriam sair dali.
É já hora de dormir.
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tremedeira amiga que é pra chacoalhar o que estava prestes a ser aquecido. pé doído esquecido, cereja com novo valor.
ResponderExcluirum beijo,
vários!