A dor da gente não sai no jornal
19/10/10
Não era Raul, nem Renato, nem John o seu nome.
Não tocava blues, nem dançava tango. Acho que nem conhecia Django, mas ainda assim era um cara massa.
Entre creedence e shocking blue, passávamos (eu e as meninas) tardes/horas a fio fingindo que estudávamos em sua casa, durante o ensino 'médio'...
De camisa pólo e blue jeans no trabalho, ou de bermuda e/ou cueca em casa (fazendo Jussa gritar 'Tiiiiio'!) , era só o riso e a barba que se via e a cordialidade que se sentia, claro.
Achava graça quando aquele ‘coroa’ chegava dizendo: “ô mayrinha, você tem que vir mais vezes aqui”, “sabe, né? sempre bem vinda!” e começava a falar do lugar de honra que ela dizia ter para cada uma de nós, amigas da nega.
Às vezes, eu sentia que ele era capaz de fazer qualquer coisa/esforço/gentileza para que a gente se sentisse bem naquele apartamento. E só ele que não percebia que isso nem era preciso, porque ser paparicada por ele já bastava pra nos sentirmos queridas naquele lugar. Com piadas e afetos, ele foi adotando as amigas das filhas. Agora, boas são as lembranças que ficam.
Do riso estampado na cara, do cabimento dado especificamente a Jussara e a todas nossas palhaçadas, são as melhores. Daí vem essa situação inesperada e quando menos percebemos estávamos todas lá, rodeando o patigo (pai, tio e amigo), que por sua vez estava rodeado de flores brancas. Sem barba, sem bigode, sem sorriso aberto. Arriscava dizer ali que não era ele. Pelo menos, não mais. Ali estava em paz, apenas.
Com a gente ficam as lembranças da liberdade concedida, da bagunça consentida e da músicas concebidas no som da sala. O Renato e seus Blue Caps antes dos filmes, os ‘besouros’ ingleses, Os Incríveis, os Rolling Stones que ele tanto gostava... os, os, os e as. As interrupções no meio das conversas e dos estudos de tarde inteira, as "assoviadas" que tanto irritavam Ananda, no final não atrapalhavam nada.
Todas nós ganhamos no decorrer desses sete anos de convivência um tio massa, camarada, ‘mó’ boa praça, gente fina e papo firme – e frouxo ao mesmo tempo, na cozinha, na escada, na sala de estar jantar corredor... À vontade ou um pouco aflito, um também “pai amigo”, da nega (Ananda), que brigava e amava, com ele, por ele, ele! Porque raça boa para sentir bons sentimentos é essa e ela teve a quem puxar!
Particularmente, o bom gosto musical do tio acabou fazendo parte do meu crescimento, o que hoje pra mim é sofrimento logo que não imagino ouvir aqueles rocks de paizão sem lembrar dele. Gostaria apenas de dizer: “Valeu, tio. Por tudo! Pelo cabimento-carinho-atenção, pelas musicas, pelas belas filhas” e garantir: “Podeixar que a gente vai cuidar bem desses brotos aqui, precisa nem pedir”.
Fica então isto escrito, aqui e no papel dobrado daquele envelope laranja que foi beijado e colocado junto com as flores que marcaram a sua despedida. Pra dizer basicamente isso: um dos caras-coroas que eu mais curtia nessa vida morreu e essa dor não sai no jornal. Por isso, a cria jornalística daquele lugar tentou retratar aqui a sua vontade, maior do que nunca de ir embora pra Pasargada. Porque lá eu era amiga do rei.
Agora, aqui eu não sou feliz. Que Manoel Bandeira nos ajude, pra que nessa fase triste, “triste de não ter jeito”, a gente se lembre que lá... éramos amigo do rei!

sinto muito :(
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