terça-feira, 30 de novembro de 2010

A amizade, o sexo, o verdadeiro amor

Na era da tela total somos - de algum modo - impelidos a ver tudo, varrer a corporeidade dos seres imaginários do cinema como um check-up, como uma endoscopia. Se todas as maneiras de amar valem à pena, nem todos os olhares midiatizados valem à pena. Se existe uma arte audiovisual de excelência com o poder de nos fazer mais plenos com relação a uma aproximação do objeto do desejo, esta deve nos conceder os privilégios de imaginar todas as sensações, emoções e sentimentos através das imagens e sons que nos propiciam. Além da mera visibilidade de um suposto objeto do desejo, a sensibilidade técnica do cinema precisaria nos instigar a uma imaginação do sabor, do cheiro e da tactilidade; mais do que isso, precisaria nos liberar da pesada materialidade corpórea, sem nos livrar das sensações do toque, do prazer da pele e do corpo, deste presumido objeto de desejo, que no fundo não passa de uma estranha extensão de nós mesmos.

[...]

Deslocamo-nos para o terreno memorável do “instante eterno”, em que as
“amizades particulares” brilham como breves lampejos da eternidade, como se ali
estivesse inscrito o grande enigma dos afetos, da amizade e do verdadeiro amor.
Essas experiências, que parecem acontecer uma única vez na vida, podem ser
atualizadas sob o signo de um outro objeto do desejo, e o cinema possui a faculdade
estética de simular as suas repetições de maneira fascinante, necessária e fundamental.

[...]

Então, talvez seja necessária uma arte radical concebida por espíritos livres dos valores morais [..]

Cláudio Cardoso Paiva

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